FAO promove 15 dias de ativismo em defesa dos direitos das #MulheresRurais | Land Portal

Foto: Bioversity Internationa/Flickr(CC BY-NC-ND 2.0)

Campanha busca dar visibilidade a iniciativas que transformam a vida das mulheres do campo, indígenas, jovens e afrodescendentes.

Brasília - Pelos próximos 15 dias, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) realiza a campanha #MulheresRurais, #MulheresComDireitos com o objetivo de dar visibilidade a iniciativas que transformam a vida das mulheres do campo, indígenas, jovens e afrodescendentes. 

A mobilização é uma iniciativa conjunta e colaborativa de alcance internacional, promovida pela FAO em parceria com 32 instituições governamentais, agências especializadas da ONU, centros educacionais e de pesquisa e entidades privadas em toda a América Latina e o Caribe. Desde 2016, tem funcionado como uma plataforma para a defesa dos direitos de mulheres rurais.

Ao longo dessas duas semanas, tratemos histórias de mulheres que enfrentam desafios, combatem as desigualdades e fazem a diferença. São mulheres promotoras da alimentação saudável, guardiãs da terra e de conhecimentos ancestrais, agricultoras e lideranças em suas comunidades, como Elismária Silva de Oliveira, a Mara, moradora do Assentamento Dois Riachões. A comunidade próxima à Ilhéus (BA) é considerada referência em práticas agroflorestais.

Confira seu relato:  

“Sou filha de camponeses. Meu pai faleceu, mas minha mãe continua na labuta. Eles sempre me ensinaram sobre a importância de produzir para comer, e comer bem, de buscar na roça o que precisamos para a nossa subsistência. Desde que eu vim para cá, tenho isso como base para minha vida e para a vida da minha filha. Eu tenho uma cozinha e sou responsável pela alimentação dos grupos aqui do assentamento. Nossa preocupação é servir um alimento bom, seguro e justo, para que as pessoas vejam que no campo se come bem, e comida saudável. Às vezes, quando vou à cidade, vejo que as pessoas ali muitas vezes não têm tempo para cozinhar, então comem os processados.

A comida reúne. Tem o poder de unir as pessoas e fazer com que elas compartilhem. 

Para mim, a transformação do alimento é o ato mais bonito que existe. A gente consegue passar energia, emoção e humildade também. As pessoas humildes compartilham, dividem. Aqui na comunidade a gente costuma trabalhar desta forma, no intuito de que as pessoas entendam que podem ter alimento de qualidade. O pé de mato que temos no quintal pode alimentar mais e melhor do que um pacotinho que compramos no supermercado.

Para mim, o ato de comer é libertador. Eu posso estar com mil e um problemas, mas, se eu estiver cozinhando, não me estresso com nada. E eu gosto de produzir alimento para muita gente. Lá em casa sempre saem umas panelonas de comida...

A comida tem esse poder transformador. A gente precisa voltar a sentir o cheirinho do alho e do arroz fritando na panela para “arrebanhar” os filhos, chamar os vizinhos, para ficar junto e partilhar. Aqui na comunidade eu brinco: “vamos juntar as panelas”. E aí a gente consegue conversar e falar da comida, dos problemas, contar histórias...

Alimento é vida!

Faz 3 anos que eu tenho essa cozinha. Desde que vim para cá, minha vontade era criar um espaço onde as famílias pudessem comer algo diferente, sem precisar ir à cidade. Estou caminhando aos pouquinhos com um projeto de restaurante e espero, em breve, oferecer um cantinho para servir uma tapioca, um pirãozinho, caldinho de aipim, escondidinho... Trazer as famílias à noite e nos fins de semana para se reunir e encontrar tudo o que precisam aqui mesmo. Um espaço para termos esse momento sempre foi um sonho de todo mundo.

Nossa comunidade também tem uma fábrica de chocolate, que pertence à 33 famílias, e a minha é uma delas. Tudo aqui é dividido, cada um tem sua função. Tem gente que cuida das estufas, tem a comissão de produção, responsável pelas áreas externas da comunidade. Eu participo do plantio, da colheita e da quebra do cacau. É uma unidade familiar, então todo mundo tem que trabalhar. Talvez amanhã eu vá para a coça quebrar cacau...”.

Fortalecendo o sistema cabruca 

Ao longo de 5 meses, a comunidade de Elismáriaparticipou das atividades de construção colaborativa do projeto “Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável de paisagens agroflorestais com cacaueiras”. A iniciativa é fruto de parceria entre a FAO no Brasil e a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira do Ministério da Agricultura e Pecuária (Ceplac/Mapa) e tem o apoio do Instituto Arapyaú.

Com investimentos de 4,7 milhões de dólares do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), o projeto pretende promover a conservação da Mata Atlântica, a inclusão produtiva e a melhoria da qualidade de vida das populações rurais no sul da Bahia. A expectativa é atender 3 mil agricultoras e agricultores da região, revitalizar 50 mil hectares de lavouras de cacau e transformar 1,6 milhões de hectares de áreas produtivas.

A iniciativa também busca dar visibilidade ao sistema cabruca, um modo de cultivo tradicional que utiliza a sombra de árvores nativas para a produção de cacau. 

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