A relação Brasil-China e o agronegócio | Land Portal
Blog originalmente publicado no IGTNews No. 30
 
Ao mesmo tempo em que se comemora a pujança do agronegócio, nos últimos 20 anos a economia brasileira tem se desindustrializado progressivamente [1] e caiu da 24ª para a 49ª posição no índice de complexidade econômica (ECI) [2]. Esta tendência fica patente ao analisarmos comparativamente a pauta de exportações com a de importações recente - onde os carros chefes de exportação são produtos de baixa complexidade (petróleo cru, minério de ferro, soja, carne bovina e celulose), enquanto as importações têm grande peso de itens de média e alta complexidade (petróleo refinado, circuitos integrados, adubos e fertilizantes, medicamentos e produtos farmacêuticos e partes de automóveis). 
 
No que tange nossas exportações, a China é o destino mais importante, adquirindo 27,6 bilhões de reais dos nossos produtos exportados, ou 33,6% das exportações brasileiras no ano de 2020 (aproximadamente 3,5 vezes mais, em valor, do que o segundo maior destino de exportações, os EUA). Ao mesmo tempo, a China também é a origem da maior parte das importações brasileiras, responsável por 21,8% da pauta de importações [3]. 
 
Do ponto de vista do Brasil, a relação com a China é proveitosa especialmente para o setor de exportação de matérias primas e para a agropecuária, dado que o país é o principal comprador desses produtos há mais de uma década. Entretanto, a entrada de produtos manufaturados e bens industriais intermediários chineses representa uma ameaça dado a competição com a produção nacional desses bens - setores estes que vêm encolhendo consistentemente há muitos anos, sintoma da desindustrialização em curso. 
 
Algumas medidas poderiam ser tomadas para diminuir esses impactos, como incentivar a agregação de valor e alterar a pauta de bens exportados pela agropecuária (realizar o processamento da soja aqui e exportar o óleo, por exemplo) e pelo setor de mineração (ao invés de minério de ferro bruto, exportar subprodutos processados do mesmo). Entretanto, no contexto atual, somado aos altos preços internacionais dessas commodities, não parece haver movimentação do agronegócio e mineração para alteração do padrão de exportação. Um outro problema se conforma na crescente dependência da exportação de matérias primas e produtos agrícolas, algo que pode ter efeitos devastadores (como já teve) no contexto de uma reversão do ciclo de valorização destes produtos (enquanto as importações de bens de média-alta complexidade se mantêm), ou no caso de uma reorganização do mercado global. 
 
Este último caso merece apontamentos, dado que dentro da esteira do projeto de longo prazo da China está a iniciativa Belt and Road que busca integração inter-regional na Ásia e partes da África e da Europa. Estes esforços diplomáticos regionais têm gerado sinalizações positivas que podem afetar a política de importação de bens agrícolas da China. Um exemplo disso é a aliança em desenvolvimento com o setor produtor de soja da Rússia [4], incentivado como consequência direta da guerra comercial entre EUA e China, principalmente durante a administração Trump. Este acordo une a ampliação do setor produtor de soja russo (ainda incipiente) ao interesse de comprar estas exportações por parte do governo chinês, um acordo potencialmente vantajoso dado a proximidade entre ambos os países. Cabe notar que a região com maior produção de soja (província de Heilongjang) faz fronteira direta com a porção oriental da Rússia onde a produção de soja tem potencial de expansão no médio prazo [5]. 
 
Do ponto de vista chinês, o Brasil segue como uma fonte segura de matérias-primas e produtos agrícolas, mas também como mercado em potencial para investimentos em infraestrutura (como terminais portuários voltados para melhorar a capacidade logística de voltada às exportações), geração de energia e, potencialmente, como fornecedor de soluções tecnológicas [6]. 
 
Por fim, dois pontos que podem afetar o agronegócio no médio prazo merecem acompanhamento no futuro próximo: primeiro, é necessário acompanhar a política da China em relação à importação de produtos “contaminados” com desmatamento ilegal - mesmo que até o momento a China tenha se mantido relativamente neutra neste sentido, isso pode ser alterado a qualquer momento. O segundo e último ponto depende da complexa relação entre EUA e China e a inserção do Brasil neste contexto, dado que o arrefecimento da guerra comercial EUA-China pode pautar termos mais favoráveis para exportação de commodities para a China (em concorrência com o Brasil).
 
Referências
 
1 - Hiratuka, C; Sarti, F. Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil. Revista de Economia Política, 37 (1), 2017. Doi: http://dx.doi.org/10.1590/0101- 31572016v37n01a10 
 
2 - OEC. Brazil. OEC, February, 2021. Disponível em: https://oec.world/en/profile/country/bra? comparisonDeltaYear=customYearDelta5&subnationalDepthSelector=HS4Depth. Acesso em 27 de maio de 2021. 
 
3 - COMEXSTAT. ComexVis. Disponível em: http://comexstat.mdic.gov.br/pt/comex-vis. Acesso em 27 de maio de 2021. 
 
4 - WU, W. China calls for "soybean industry alliance" with strategic partner Russia. SCMP, 26 de agosto de 2020. Disponível em: https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3098980/china-calls-so... industry-alliance-strategic-partner-russia. Acesso em 27 de maio de 2021. 
 
5 - SIZOV, A. China's switch to Russia's soybeans no match for U.S. farmers. Successful Farming, 20 de novembro de 2019. Disponível em: https://www.agriculture.com/markets/your-world-in-agriculture/chinas-switch to-russias-soybeans-no-match-for-us-farmers. Acesso em 27 de maio de 2021. 
 
6 - RIVEIRA, C. Demanda por agro do Brasil seguirá crescendo, diz embaixador chinês. Exame, 08 de abril de 2021. Disponível em: https://exame.com/mundo/china-mantera-demanda-forte-por-produtos-agricol... embaixador/. Acesso em 27 de maio de 2021. 

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